De Patrícia Cale / Casa dos Bits
Semana nº 1018 de 15 a 21 de Abril de 2011

Num mercado cada vez mais conhecedor e amadurecido, os critérios para a aquisição de um ERP são também eles mais exigentes, além de serem condicionados pelo contexto económico.
O período de instabilidade económica que atravessamos actualmente impõe novas exigências aos gestores na altura de adquirirem um software de Enterprise Resource Planning (ERP) para as suas empresas. Aos habituais critérios da qualidade do produto e da prestação do serviço, junta-se a preocupação com o custo e a escolha da solução mais ajustada à área de negócio e às necessidades de cada empresa. Este cenário impõe, pois, soluções e tecnologias mais eficientes e assentes na verticalização.
Esta escolha tem como principal impulsionador a necessidade de os gestores utilizarem software à medida para os seus negócios, em que ao mesmo tempo não tenham de despender mais do que o preço de um software standard, considera Miguel Capelão, administrador da PHC. «Estas aplicações têm permitido aos gestores diminuírem a complexidade das tarefas exclusivas do seu sector de actividade. Ao estarem preparados para as necessidades específicas de um determinado sector, conseguem dinamizar ainda mais as suas empresas», refere este administrador.
O facto de cada vez mais os clientes precisarem de soluções totalmente ajustadas à sua área de negócio e às suas necessidades explica-se, segundo Jaime Gomes, sócio-gerente e director financeiro da Alidata, através das vantagens obtidas nos campos do funcionamento e da implementação. «A forte competitividade do mercado tem levado a uma procura muito mais exigente de soluções e tecnologias que tenham um desempenho mais eficiente. Os clientes procuram cada vez mais aplicações construídas de raiz e direccionadas para a sua área de negócio, e não soluções genéricas que são posteriormente adaptadas aos diferentes negócios», afirma Jaime Sousa.
Numa fase em que a conjuntura económica está mais debilitada, há igualmente funcionalidades no ERP que merecem maior atenção por parte dos gestores. Tesouraria, reporting, análise e gestão de desempenho parecem liderar o ranking. «Neste momento, todas as ferramentas que permitem fazer análises são uma prioridade. A tesouraria é uma das áreas em que os gestores estão mais centralizados, pois é o sector responsável por todo o controlo financeiro da empresa. Um bom controlo de gestão e de tesouraria permite, por exemplo, a tomada de decisão correcta para fazer um investimento ou um financiamento», nota Jaime Sousa.
Para Paulo Pereira, director comercial da Alvo, estamos a falar das aplicações que permitem ao gestor de uma empresa obter a informação de que necessita para fundamentar as suas tomadas de decisão. O director comercial e operacional da Alvo lembra que as empresas se deparam com maiores dificuldades na cobrança das suas facturas, bem como na obtenção de crédito, devido à actual conjuntura económica. «Assim sendo, as soluções de gestão de tesouraria e bancos tornam-se fundamentais para garantir o controlo das contas correntes de todas as entidades com as quais a empresa se relaciona, permitindo a criação de processos automáticos de tesouraria previsional.»
Por outro lado, as soluções que permitem controlar ao pormenor os orçamentos, bem como os contratos de fornecimento, também assumem uma importância vital. «Considerando que a gestão se deve tornar cada vez mais eficaz, é imperativo optimizar os processos da empresa desde a proposta comercial. Desta forma, salientamos a importância de soluções que permitam gerir o relacionamento com o cliente (CRM), principalmente se estiverem integradas com o ERP», defende o responsável da Alvo.
Numa era em que a competitividade é decisiva para o sucesso empresarial, a aposta na qualidade e na melhoria contínua da performance dos processos organizacionais deve ser encarada como uma prioridade para as organizações que procuram a excelência empresarial, defende Paulo Pereira. «Nesse sentido, as soluções de Quality & Process Management e Business Intelligence tornam-se ferramentas fundamentais para qualquer gestor de uma empresa, já que permitem analisar a organização tendo em conta um valor macro, ou indicadores mais pormenorizados, nas situações que possam requerer mais atenção.»
De um modo geral, as aplicações analíticas e de reporting estão na linha das prioridades das grandes empresas, lembra Teresa Gândara, business solutions director da Noesis. «Empresas que dispõem de bons sistemas transaccionais e de dados armazenados fiáveis têm uma importante mais-valia, desde que deles tirem partido. Daí a preocupação de disponibilizarem aos vários níveis de gestão ferramentas de fácil acesso a essa informação, de fácil customização e personalização da apresentação gráfica dos dados e de funcionalidade de pesquisa e exploração intuitiva da informação.»
O total controlo destas áreas, com informações em tempo real que permitam a tomada de decisões acertadas e uma boa gestão de tesouraria são sempre imprescindíveis, ganhando importância em épocas com ambientes económicos mais desfavoráveis, acrescenta Miguel Capelão. Além disso, a entrada em vigor da lei da certificação do software de fez com que a solução de facturação se tornasse numa grande prioridade.
SaaS e cloud contra on-premise
Se o enfoque relativamente ao tipo de soluções tem vindo a mudar, o mesmo acontece com os modelos de contratação, com o Software as a Service (SaaS) e a cloud computing a liderarem o processo.
Os anunciados benefícios que os dois novos conceitos encerram, em termos de diminuição dos custos e dos riscos associados à manutenção das soluções em parque informático próprio, transformam-nos em soluções de futuro. Nesta altura ainda parecem reservadas aos mais destemidos, na opinião da maioria dos players.
«Neste momento, estamos na fase denominada por early adopters como “curva de adopção das tecnologias”. Já temos alguns clientes a migrar para o modelo SaaS, mas só os mais destemidos enveredam por este caminho», considera Bruno Figueiredo, coordenador de Marketing da CIL, que acredita que até ao final do ano o modelo estará implementado na “early majority” dos clientes da empresa.
Paulo Pereira, da Alvo, também considera que o SaaS e a cloud representam o futuro e crê que a maior parte das soluções irá convergir para estes modelos. Neste momento, no entanto, julga que os decisores estão mais orientados para soluções standard do que para soluções à medida dos processos de negócio da empresa. «Por este motivo, a representatividade destes modelos no negócio da Alvo ainda é baixa, pois, grande parte do serviço passa pela adaptação do ERP às necessidades específicas da empresa.»
O cenário é idêntico na Alidata. A empresa acredita que o modelo virá a ser uma realidade a curto prazo, mas considera que há muitos negócios que nunca irão adoptar este tipo de solução. «Temos um grande conhecimento do mercado e sabemos que cada caso é um caso», explica Jaime Gomes. Embora a utilização das expressões SaaS e cloud seja comum, Francisco Lopes da Fonseca, administrador executivo da Mind Source, nota ainda alguma relutância por parte de algumas empresas em relação a evoluírem os seus sistemas core para este tipo de modelo de contratação.
«Apesar de termos já implementações destas disponíveis por nós e pelos nossos parceiros a funcionar nos nossos clientes, o volume de negócios ainda é bastante reduzido, bem como a receptividade dos principais responsáveis das organizações para esta questão», afirma o administrador da Mind Source, que considera que os modelos de negócio desenhados carecem ainda de uma maior agressividade no preço, «pois, em muitos casos ainda é mais caro no médio-prazo optar por alterar o ownership das aplicações».
A Primavera BSS Portugal tem uma experiência diferente para contar. Neste momento, a empresa conta com mais de 2100 clientes que usufruem directa ou indirectamente da sua cloud, e pretende reforçar a sua oferta com novas soluções de gestão e de colaboração ainda durante o segundo trimestre deste ano.
«Embora ainda exista alguma desconfiança quanto a estes modelos, a significativa redução de custos e a disponibilidade com a segurança das soluções em tempo real irão dinamizar a adopção destas soluções pelas empresas, qualquer que seja a sua dimensão», defende José Carlos Azevedo, country manager da Primavera Portugal.
Tendências a considerar
Além da cloud e do SaaS, outras tendências se avizinham na forma de as empresas se “relacionarem” com a sua solução de ERP. Carlos Marques, coordenador da área de consultoria de negócio da Quidgest, acredita que o futuro vai reforçar a necessidade de apostar nas áreas de business intelligence, nas plataformas colaborativas e na integração com dispositivos móveis, áreas em que a empresa já mantém actividade.
A par da tendência de desmaterialização das infra-estruturas, e da consolidação do conceito de cloud e tudo o que lhe está associado, Bruno Figueiredo, da CIL, também considera que as ferramentas de BI, com a sua capacidade para obter resultados analíticos da organização do cliente, a qualquer hora e em qualquer local, estarão em destaque entre os serviços disponibilizados pelos fornecedores de soluções.
Para Francisco Lopes da Fonseca, administrador executivo da Mind Source, vamos assistir a uma redução na utilização de aplicações desenvolvidas à medida para resolver um problema específico, «e isto faz com que não seja necessário ‘reinventar a roda’ na maioria das situações, tornando o tempo de adequação de uma plataforma ao negócio do cliente cada vez mais curto e mais focalizado no seu core business, e não apenas na tecnologia».
Este tipo de abordagem permite, segundo o responsável, que o factor diferenciador das empresas seja cada vez mais a sua capacidade de comercializar, gerir, administrar a sua marca e os seus produtos, e cada vez menos o ritmo e a agilidade a que a equipa de TI consegue responder às diferentes necessidades das áreas de negócio, pelas próprias limitações de custos que o negócio impõe para se manter competitivo.
Fonte: [http://www.semanainformatica.xl.pt]