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13 de abr. de 2011

Soluções de TI que dinamizam sector de construção e obras públicas


De Fátima Caçador / Casa dos Bits
Semana nº 1017 de 8 a 14 de Abril de 2011

Controlar melhor os custos e os projectos em tempo real é um dos desafios que o sector da construção e das obras públicas enfrenta, e as tecnologias da informação podem dar um contributo significativo
A dispersão geográfica do negócio das empresas de construção e obras públicas, a multiplicação de estaleiros e rotatividade de colaboradores são desafios de especial complexidade para uma gestão sustentável das empresas, questões que se agravam significativamente com a actual conjuntura económica e a necessidade imperiosa de controlar de forma eficaz orçamentos e prazos de entrega, reduzindo custos.

A realidade é bem conhecida das empresas de tecnologias da informação e comunicação, que nos últimos anos têm vindo a ajustar a sua oferta para ajudar o sector a melhorar o seu desempenho e a apetrechar-se com soluções tecnológicas que permitam optimizar o negócio. Em muito casos a resposta passa por soluções de software verticalizado, sobretudo na área de ERP e software de gestão, adaptando-se à realidade específica do sector, o qual continua a ter um peso significativo na economia portuguesa, quer em termos de volume de negócio, quer como gerador de emprego.

Porém, a conjuntura económica apresenta-se particularmente desfavorável para o sector da construção e obras públicas. Os dados da Federação Portuguesa da Indústria (FEPICOP) mostram que nos últimos três anos a redução do investimento público e privado tem sido penalizadora para esta actividade, levando ao desemprego de mais de 70 mil pessoas. E as perspectivas para 2011 não são positivas, uma vez que se prevê uma redução do PIB e dos programas de contenção de despesa pública.

Perante este cenário, as tecnológicas estão a posicionar-se para ajudarem as empresas de construção e obras públicas a atravessar a actual conjuntura. O principal enfoque está centrado na melhoria do desempenho, no controlo de custos e projectos em tempo real e também na integração dos processos numa plataforma única.

«Com a diminuição do investimento do Estado em obras públicas, devido à actual crise económica e financeira, a dificuldade por parte das construtoras em garantir a adjudicação de obras aumentou. Não só porque há menos obras colocadas em concursos públicos, mas também porque a concorrência às mesmas é intensa e o tempo que o Estado demora a pagá-las é tendencialmente longo», refere Luiz Muraro Neto, CEO da Totvs. Estas condições obrigam a saber gerir melhor, a apresentar preços mais baixos com margens de lucro exequíveis, a detectar e corrigir rapidamente derrapagens na execução de orçamentos e a controlar custos continuamente.

Céu Mendonça, manager da unidade de negócios de PME na Sage Portugal, acredita que as soluções verticais têm um contributo importante a dar na melhoria da performance do sector. «As empresas já cobriram todas as necessidades de âmbito transversal e estão agora na altura de tratarem com outro detalhe as áreas específicas. Principalmente quando vivemos ciclos económicos menos positivos, em que se impõem estilos de gestão mais exigentes. Sem informação de suporte, o processo de tomada de decisão é puramente empírico», lembra esta responsável.

A estratégia da Primavera Business Software Solutions passa precisamente por tornar a oferta mais abrangente, cobrindo as diferentes necessidades das empresas, desde os simples processos de backoffice aos processos críticos de negócio, no que concerne à Gestão de Obras e à Gestão e Manutenção de Equipamentos, como explica Luís Cadillon, responsável pela área de Soluções Verticais da PRIMAVERA BSS. A aposta é também na maior sofisticação e mobilidade, tornando mais eficientes os processos e a integração dos dados.


Maturidade desejada
À semelhança do que acontece noutros sectores de actividade, a diversidade de dimensão e organização das empresas é determinante nos níveis de adopção das tecnologias da informação. Se os grandes players do sector dependem das ferramentas de gestão e colaboração, beneficiando da vantagem competitiva, as de menor dimensão – e sobretudo as PME – estão longe do nível de informatização desejável.

Miguel Capelão, administrador da PHC Software, ajuda a traçar o retrato. «Este sector amadureceu muito nos últimos anos com o desenvolvimento tecnológico das soluções, o que levou as empresas a ficarem realmente muito mais receptivas a estas tecnologias; passaram a encará-las como uma vantagem real para optimizarem o seu desempenho», explica.

Mas uma das barreiras a uma maior especialização provém da dificuldade de obtenção de financiamento para os projectos e reformulações tecnológicas. «Penso que é um tema que terá de ser acompanhado de perto pelas entidades financiadoras, que vão continuar a desempenhar um papel fundamental no mercado tecnológico. As empresas continuam a acreditar nas tecnologias de informação, mas precisam de apoio financeiro para concretizar os investimentos», salienta Miguel Capelão.

Fora do âmbito estrito do software de gestão, as soluções de BIM – Modelo de Informação da Construção têm também um papel cada vez mais relevante na optimização das contas de exploração das empresas de engenharia através da melhoria da produtividade, papel esse que se reflecte em ganhos de competitividade. «Sabendo que 40% a 50% dos sobrecustos de construção têm origem em erros de projecto e na sincronização de versões dos desenhos entre os vários parceiros de projecto, é do conhecimento geral que a adopção destas tecnologias apresenta um ROI muito mais atractivo do que em relação a outras», lembra Jorge Horta, country manager da Autodesk em Portugal.

A actual crise tem sido por isso um factor de impulso à adesão destas soluções, como reconhece este responsável, contribuindo para uma crescente maturidade de algumas empresas do sector no domínio do BIM, que, curiosamente, é mais perceptível nas maiores empresas e nas mais pequenas. «Infelizmente muitas das empresas de dimensão média não têm tido a facilidade e a flexibilidade para introduzirem as mudanças necessárias», admite.

Estímulos externos
No início a resistência a soluções de gestão poderá até ter sido maior do que aconteceu noutros sectores. Mas a necessidade de as empresas se manterem competitivas e a existência de alguns estímulos externos têm servido de factores de dinamização, nomeadamente, para a internacionalização dos negócios, como explica Paulo Coelho, director de soluções e desenvolvimento de negócio da SAP. «As empresas de construção civil e obras públicas têm vindo a responder à desaceleração do mercado nacional, actuando essencialmente em três grandes níveis: reforço da internacionalização; diversificação para novos negócios (concessões de transportes, ambiente e serviços); e aumento da eficiência operacional através da racionalização e consolidação de recursos.» As soluções multiplataforma e multimoeda da companhia e o seu know-how no aumento de eficiência operacional e racionalização e consolidação de recursos têm sido estratégicos para vários parceiros, assim como a capacidade de apoio na diversificação do negócio para áreas anexas à engenharia.

O caminho é traçado por outras empresas do sector, como a Primavera, e em alguns casos o apoio à internacionalização leva até a parcerias que se estendem fora do país, o que aconteceu com a Ábaco Consultores, que abriu recentemente uma subsidiária no Brasil. Esta aposta está a dar «resultados francamente positivos após o primeiro ano», como adianta Fernando Lopes, director geral da empresa.

O trabalho com a Administração Pública é apontado também por Paulo Pereira, director comercial e operacional da Alvo, como um factor de estímulo da crescente maturidade do sector. A implementação do portal de compras públicas levou a que as empresas de construção tivessem de se adaptar e de ajustar os seus processos a esta realidade, o que implicou, «em grande parte dos casos, um investimento adicional relevante em TI». No caso da solução específica que a Alvo tem para este sector – denominada  GOA –, essa ligação ao portal das compras públicas já está assegurada, o que facilita o processo de adaptação, garante.

Informação em tempo real
A par dos sistemas de gestão as áreas de business intelligence e EPM estão igualmente a ganhar lugar entre as soluções relevantes para este sector de actividade, nomeadamente nas áreas de análise agregada de performance e consolidação de contas. É nesta área que se posiciona a BOND, a empresa que recentemente adquiriu a Actis. Carlos Cardoso, vice-presidente de Business Intelligence, afirma que a dispersão de negócio da maioria dos grupos económicos associados às construtoras é um dos factores que impulsionam esta adopção de soluções na área de BI, que acontece normalmente nas empresas que já têm os sistemas de informação de gestão estabilizados, e que equacionam por isso a implementação de soluções analíticas e de planeamento orçamental.

Paulo Coelho, director de soluções e desenvolvimento de negócio da SAP, reconhece que são  sobretudo as estratégias de reforço da internacionalização e a diversificação para novos negócios que estão a dinamizar o investimento em ferramentas de business intelligence, como forma de obter informação que suporte a tomada de decisão, uma tendência que deverá acelerar nos próximos anos. «Esta é claramente uma área onde as principais construtoras portuguesas estão já num patamar equivalente ao que de melhor se faz a nível internacional», sublinha, embora seja ainda necessário evoluir para reforço de ferramentas de suporte a processos de orçamentação, planeamento, controlo e consolidação, e na capacidade de controlar em tempo real margens, custos e rentabilidades, por linha de negócio e geografia.

Os desafios de evolução das empresas do sector colocam-se sobretudo no campo das melhorias operacionais, nomeadamente em relação à mobilidade, devido à crescente disponibilização das plataformas nos estaleiros das obras e à dificuldade de gestão remota das obras. Grande parte da actividade da empresa é desenvolvida fora do escritório, pelo que há necessidade de manter a comunicação e aumentar a rapidez de decisão. Cada vez mais, os colaboradores das empresas precisam de usar em campo os dispositivos móveis para confirmarem a recepção de material ou para acederem a informação sobre o desempenho do negócio. 

«A chave do negócio é claramente ter informação em tempo real e optimização de custos», lembra Pedro Araújo, director comercial da Hydra, referindo a clara aposta existente na mobilidade e na capacidade de controlo de equipamentos e recursos, com recurso ao uso de, por exemplo, soluções de RFID.

A manutenção dos níveis de investimento é outro dos elementos fundamentais na actual conjuntura económica, por isso os modelos de software as a service e de cloud computing começam a ganhar peso, fazendo já parte da oferta dos principais players do sector, mesmo que a adesão dos clientes seja ainda tímida.


Compras cada vez mais online

Ao contrário de outras áreas dos sistemas de informação, a adesão do sector de construção e obras Públicas às plataformas de compras online acabou por ser bastante rápida, até pelo incentivo do Estado, que com a implementação do portal de Compras Públicas obrigou as empresas a acelerarem os seus processos tecnológicos sob o risco de perderem oportunidades de negócio.

Embora no mercado privado não existam leis a regulamentar a utilização das plataformas electrónicas, foi a adesão das grandes empresas do sector o principal elemento de dinâmica, que ajudou a colocar Portugal numa posição de liderança nesta área.

A Construlink e a econstroi, da Vortal, são actualmente as duas principais plataformas electrónicas para o sector de construção e concentram grande parte das adjudicações de obras do sector privado e público. «Em 2010 passaram por plataformas electrónicas em Portugal cerca de 8 mil milhões de euros, o que representa cerca de 75% da contratação pública, sendo que destes 8 mil milhões 80% dizem respeito a empreitadas de obras públicas», explica Rui Ramos, director do econstroi Market. Este portal conta com duas centenas de empresas compradoras, 6000 milhões de euros em adjudicações, 360 mil consultas e mais de um milhão de propostas apresentadas.

Algumas empresas destacam-se pela sua actividade, nomeadamente a Mota-Engil, a Opway, a MSF e a Monteadriano. Mas a média de utilização das compras no total de empreiteiros que integram o econstroi é mais baixa, embora ultrapasse os 50%.

Pedro Paulo, CEO da Construlink, admite que tendencialmente são as grandes e médias empresas que mais aderem às soluções apresentadas por este portal. «As empresas estão conscientes de que num mercado cada vez mais competitivo as soluções tecnológicas podem ser mais-valias para o negócio nomeadamente a redução de custos, e o aumento da eficiência e a eficácia», refere, acrescentando que há uma procura crescente de ferramentas de controlo e análise e de optimização de recursos, compras e poupança financeira.

A resistência à mudança é ainda um dos principais entraves a um maior alargamento destas soluções, como admite Rui Ramos. «O grande desafio das empresas de construção será consciencializarem-se de que ou se adaptam às novas formas de comunicação, às novas forma de fazer negócio, ou, muito provavelmente, num mercado tão competitivo em que vivemos, e na construção em particular, o seu futuro pode estar hipotecado».

Apesar do cenário económico, a perspectiva é positiva. «Neste momento existem todas as condições para que o crescimento da utilização de plataformas electrónicas no sector de construção e noutros possa crescer», garante Rui Ramos. Em 2010 registou-se um contínuo e importante aparecimento de novas relações de negócio no econstroi e a taxa de adjudicação a novos fornecedores atingiu 45%, uma das melhores taxas de sempre. Este resultado «deriva da necessidade de diversificação de quem compra e sobretudo da utilização de ferramentas que possibilitem fazer de forma automatizada o trabalho de prospecção das empresas compradoras». Além disso, abre boas perspectivas a quem está a entrar nestes sistemas


Evolução em 3D

A geração de modelos digitais 3D, incluindo a completa descrição dos materiais e das fases da construção, bem como o posicionamento detalhado no terreno, em relação a outras construções e à exposição solar, estão entre os factores de maior transformação do software de CAD nos últimos anos, que há muito deixou de se limitar à produção de desenhos.

«Esta mudança para os Modelos foi crítica para abrir o caminho à execução de muitas mais simulações e análises em fase de projecto, comparativamente às que se vinham fazendo no passado», explica Jorge Horta, country manager da Autodesk em Portugal. O software passou a poder simular muito mais alternativas, permitindo uma visão rápida de cada uma delas e tornando mais simples e baratas as alterações, ainda em projecto.

A visualização em 3D trouxe também mudanças na capacidade de “vender” os projectos. «A visualização 3D, além de apoiar a comunicação da qualidade do projectista e da obra final, tem sobretudo um papel crítico na ajuda ao utilizador na compreensão, sem sombra de dúvidas, do que é que vai comprar», adianta o mesmo responsável, lembrando que desta forma se limita também o nível de conflitos e as alterações em estágios mais avançados da produção.

«Estas tecnologias 3D permitem também apoiar a planificação e o controlo durante a evolução da obra», refere, lembrando que a tecnologia pode detectar automaticamente atravancamentos e interferências em fases onde as alterações têm menos custos.

 

[Fonte: http://www.semanainformatica.xl.pt]